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O alto endividamento das famílias: causas, consequências e soluções

Jorge Jatobá (Artigo publicado no JC)
16 de Abril de 2026

16 - Abr

A situação atual das dívidas das famílias no Brasil atingiu um patamar recorde em março de 2026, com 80,4% das famílias brasileiras declarando possuir dívidas a vencer. Em Pernambuco este percentual foi de 80,9% Esse índice renovou o maior nível da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (CNI/PEIC), superando os 80,2% registrados no mês anterior. Embora a taxa de inadimplência (contas em atraso) tenha apresentado sinais de estabilização em torno de 29,6%, ela permanece superior aos níveis de 2025.

A evolução do endividamento das famílias brasileiras desde 2005 é marcada por fases distintas: um crescimento vigoroso entre 2005 e 2010, uma inflexão até 2017, e uma nova trajetória de ascensão iniciada no final de 2018. Durante a pandemia (2019-2020), medidas como o Auxílio Emergencial e a renegociação de dívidas reduziram temporariamente a pressão sobre os orçamentos familiares. No entanto, a partir de 2021, com o fim desses auxílios e a elevação substancial da taxa Selic (que subiu de 2% para 15,0%), o comprometimento da renda voltou a crescer substancialmente. O comprometimento médio da renda das famílias com o serviço da dívida (juros e amortizações) alcançou níveis historicamente elevados, chegando a 29,33% no ano passado. Esse nível de endividamento tem um efeito direto na economia, pois compromete o consumo: estudos indicam que quando a relação dívida/renda ultrapassa 39,6%, o impacto do aumento dos salários sobre o consumo cai cerca de 40%.

Houve uma "explosão" no uso do cartão de crédito, que se tornou a principal modalidade de dívida para 58% das famílias. O acesso foi ampliado especialmente entre as populações de baixa renda e menor escolaridade, muitas vezes utilizando o crédito rotativo para despesas básicas de subsistência.

A inadimplência é particularmente crítica em modalidades de alto custo e curto prazo. O Cartão de Crédito Rotativo apresentou uma das taxas de inadimplência mais expressivas, atingindo quase 50,0% em anos recentes. O endividamento recorde de 2026 é liderado pelas famílias de maior renda (acima de 10 salários mínimos), que preferem o crédito ao uso do pagamento a vista. No entanto, a inadimplência e o comprometimento da renda são significativamente maiores e crescem mais rápidos entre as famílias de menor renda (até 10 salários mínimos). O cartão de crédito é o principal instrumento de dívida para a maioria das famílias (58% a 78,4%), seguido por crédito pessoal e carnês.

No caso do Nordeste, esses números são mais elevados porque a renda média do nordestino é quase 50% menor do que a renda média brasileira.

Esses números explicam porque, apesar de uma baixa taxa de desemprego (5,4% em janeiro de 2026) e do crescimento do rendimento médio real do trabalho, (6,1% também janeiro de 2026) o valor das vendas no varejo onde as famílias compram alimentos e bebidas, vestuário e calçados, medicamentos e itens de higiene pessoal, entre outros, está estagnado (0,0% em 12 meses até janeiro de 2026). A renda disponível, após pagamento das dívidas, torna-se menor, comprometendo o consumo das famílias. Um agravante é o comprometimento da renda nas apostas esportivas (as BETS) que reduz ainda mais consumo.

Há indicações também de mudanças estruturais no mercado de crédito com uma maior seletividade das operações devido à alta inadimplência. Observa-se, de forma consistente, uma tendencia de queda no saldo de créditos concedidos nos últimos 12 meses. Pagar as dívidas tem sido também um dos fatores responsáveis por saída liquida da poupança entre$ 80 e R$ 100 bilhões de reais nos últimos anos. Sacar dinheiro da poupança para pagar dívidas, compromete o consumo futuro das famílias. E como a poupança também financia o investimento, o próprio crescimento da economia.

O cenário em 2026 permanece desafiador devido às incertezas geopolíticas e à alta nos preços de combustíveis, que pressionam a inflação e reduzem o poder de compra, forçando famílias a recorrerem a mais crédito para despesas básicas. Para mitigar essa crise, o Governo Federal concebeu e implementou iniciativas como o Programa Desenrola Brasil, focado na renegociação de dívidas, e a aprovação de limitações para os juros do cartão de crédito rotativo. O programa Desenrola Brasil operou em 2023, sendo possível que retorne em 2026, mas as negociações, no passado, conduziram a uma pequena baixa na taxa de endividamento no curto prazo que não foi sustentável devido ao crescimento exponencial das taxas de juros (juros sobre juros com taxas altas por causa da SELIC) nos longos períodos negociação para pagamento das dívidas. O governo está gora avaliando se permite saque antecipado do FGTS para pagamento de dívidas. Há, todavia, dois problemas, primeiro: diminui os recursos do FGTS para financiar os programas habitacionais e, segundo conduzem as pessoas endividadas a terem menos renda no futuro para obterem mais renda no presente (antecipação de renda). Quem está disposto a fazer essa troca? Isso, dizem os economistas, depende de como o consumidor valoriza a renda futura versus a renda presente, a denominada taxa intertemporal de preferência.

Não é suficiente reduzir a SELIC, moderar o uso de instrumentos de crédito ou instituir programas de renegociação para diminuir o endividamento .É preciso agir nas outras dimensões, conjunturais e estruturais, que a determinam. Uma das formas de reduzir o endividamento das famílias é reduzir a inflação e elevar a renda média do trabalhador brasileiro via crescimento econômico e aumento da produtividade.

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