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ENSAIO – Educação em Pernambuco: Trajetória recente, percalços, avanços 

Tarcisio Patricio de Araujo – Phd em Economia

Roberto Alves de Lima – Dr em Economia e Mestre em Estatística


Este artigo faz parte do livro Socioeconomia Pernambucana: Mudanças e Desafios, publicado pela CEPE Editora em 2018. Todos os direitos reservados


1. Introdução

Pensar educação no âmbito de uma unidade da federação exige dar-se conta de particularidades no plano estadual, necessariamente recorrendo-se a contextualização, cobrindo aspectos atinentes a atendimento da demanda, avaliação de desempenho e também a decisões e mudanças na esfera educacional do país. Avanços e recuos importantes podem se dar no plano local, até mesmo circunscritos a uma determinada unidade escolar, e em qualquer nível de ensino ou esfera administrativa. Porém, o peso de decisões nacionais tocantes a educação é crucial. Deve-se, ademais, estar consciente da importância de diferenças regionais – e interestaduais – acumuladas ao longo da formação histórica do Brasil[TA1] .

Feita tal qualificação, vê-se o imenso desafio de fazer o sistema educacional brasileiro (e, no caso, pernambucano) dar passos mais largos e consentâneos com o ritmo da veloz revolução tecnológica no mundo, nos últimos 20-30 anos. A dimensão da tarefa é muito maior no Brasil – versus países a este comparáveis – dado o reconhecido atraso educacional e o que poderia até ser visto como leniência no tratar do acervo e do potencial deste país.

Para se dimensionar o objetivo de imprimir maior ritmo de avanço educacional, sob o imperativo da urgência, destaquem-se dois momentos – nas últimas três décadas – em que o Brasil fez grandes mudanças institucionais e até logrou avançar, mas os resultados seguem longe de corresponder ao que efetivamente precisa ser alcançado.

O primeiro momento – advento da Constituição de 1988 – propiciou mudanças institucionais em diversos campos, destacando-se educação, saúde e direitos sociais, como registrado na literatura. O segundo momento foi quando o país finalmente se livrou da perenidade da elevada inflação, com a implementação da nova moeda, o real, desde julho de 1994. A despeito de percalços, criou-se – a partir de 1999-2000 – um ambiente institucional mais favorável a ações programáticas nas esferas pública e privada, com efeitos positivos sobre a governabilidade nos três níveis político-administrativos do país.

Em educação, inciativas não muito complexas, como a busca de universalização tanto de creches quanto de escolas para crianças até quatorze anos, e a implementação, nos últimos 25 anos, de medidas de avaliação educacional, trouxeram avanços devidamente registrados. Todavia, apesar de bons resultados no atendimento à demanda, a persistente deficiência de qualidade da educação é unânime na percepção de especialistas. E subsistem marcantes diferenças regionais, particularmente em educação.

A quadra atual é crítica. O país luta para superar a mais profunda crise econômica e política em quase 90 anos. Dependemos de estratégicas reformas constitucionais, além de a questão fiscal – pendente há mais de 20 anos – assumir maiores dimensão e gravidade. Trata-se de um delicado contexto para alocação de recursos escassos em um país que avançou, mas que ainda tem um grande déficit social, sobretudo educacional, a ser eliminado.

Portanto, cresce a importância de se avançar no campo educacional, maximizando-se a eficiência no uso de recursos escassos. Avanços efetivos na qualidade dos resultados vinculam-se a acúmulo perenal de ganhos qualitativos, uma vez que investimentos em educação – em dado momento – exigem anos e anos para gerar resultados efetivos. Como no caso brasileiro o atraso educacional nasce nos primeiros degraus da instrução escolar, gerando deficiências que se perpetuam degraus além, até o Ensino Superior, a dimensão temporal assume crucial relevância.

Acrescente-se que avançar em ambiente de acelerados avanços tecnológicos – que afetam profundamente a economia e a sociedade e, obviamente, estabelecem parâmetros revolucionários no campo da educação – se associa a mudanças cada vez mais complexas. Ademais, face a um futuro imediato de séria limitação de recursos – até que o setor público supere o grande déficit fiscal –, cada real gasto em programas e políticas sociais, e particularmente em educação, necessitará ser muito bem direcionado. O problema, para Pernambuco – como para o Brasil –, assume caráter peculiar nos próximos anos. E a gestão pública, de modo geral, necessita ser compatível com os novos tempos.

Estabelecida tal linha de análise, considere-se o limite de espaço – em uma obra que trata de diversos outros aspectos-chaves da realidade pernambucana. Assim, a abordagem é dosada na contextualização, na escolha de aspectos mais problemáticos e no tratamento de eventuais avanços, buscando-se dar conta do essencial.

2. Situação educacional no Brasil – aspectos básicos

Consideram-se, nesta seção – conforme o anunciado preceito de contextualização – aspectos básicos do atual estágio da educação no Brasil, identificando-se mudanças recentes, a partir do uso de dados coletados de fontes qualificadas.[i]

Aspecto fundamental é o renitente saldo de analfabetismo, quando várias outras nações comparáveis ao Brasil já se livraram dessa inaceitável chaga. Temos 11,8 milhões de pessoas com mais de 15 anos que não sabem ler e escrever – analfabetos –, contingente que, a despeito da redução operada nos últimos dez anos, ainda assume significativa expressão relativa: 11,1% em 2005; 7,2% em 2016. Por outro lado, nesse último ano a taxa de analfabetismo chegou a 20,4% entre pessoas com mais de 60 anos, fator que reflete a herança de atraso brasileira. 

Diferenças importantes subsistem entre regiões. O Nordeste apresenta a maior taxa de analfabetismo (14,8%), constituindo 6,5 milhões de pessoas (55% do contingente nacional de analfabetos). Já no Norte a taxa de analfabetismo é de 8,5%; no Sul 3,6%; no Sudeste 3,8%; e no Centro-Oeste 5,7%. Portanto, se ainda falta muito para o Brasil atingir índices de países desenvolvidos, a superação do status de atraso exige, no Nordeste, avanços em ritmo muito mais acelerado do que o das demais regiões do país[TA2] .  

            Quanto ao atendimento escolar para crianças de seis a 14 anos de idade, o país quase atinge a universalização plena, um considerável avanço. Em 2015, as proporções foram 98,5% no país e 98,0% no Nordeste, alcance para o qual contribuíram, inclusive, políticas implementadas desde 1995, que vêm retirando crianças do trabalho infantil. Observe-se que especialistas em educação alertam para a óbvia importância do ensino de qualidade nos primeiros degraus da escada escolar.[ii] Como se sabe, o calcanhar de Aquiles da educação no país é justamente a qualidade no ensino. O que ainda é preciso a fazer nesse campo constitui imensa tarefa em razão de investimentos deficitários em programas de creches e no Ensino Fundamental, particularmente o Fundamental I.

Ademais, a proporção – no país – da população de 25 anos ou mais que, em 2016, havia concluído o Ensino Fundamental ou nível equivalente alcançou 51%; para o Ensino Médio completo ou equivalente, proporção de 26,3%; enquanto uma fração de 15,3% foi de pessoas com nível Superior completo. Um perfil bem distante do de países comparáveis ao Brasil, o que pode ser ilustrado por meio de um indicador-síntese: a escolaridade média da população de 25 anos ou mais de idade, no Brasil, alcançou – em 2015 – 7,9 anos de estudo completos[iii] (7,8 em 2014), o que ainda não equivale a todo o Ensino Fundamental. Em contraste, o mesmo indicador no Chile já atingia, em 1985, a média de 7,3 anos (o mesmo do Brasil em 2011).[iv] Virtualmente, um gap de 30 anos entre os dois países, em desfavor do Brasil. 

Nessa mesma linha contextual algumas informações oriundas do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) serão introduzidas. Números sobre o Brasil (2012 e 2015), de Sinopses Estatísticas, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), são o suficiente para se ver a posição relativa do país no concerto de nações cobertas pelo Pisa, revelando quão desafiador é para o Brasil retomar a trajetória de avanços em proficiência:

a) o Brasil, entre 70 nações, ficou na 63ª posição em Ciências, na 59ª em Leitura e na 66ª colocação em Matemática, na edição de 2015.

b) há uma proporção de estudantes brasileiros abaixo do nível básico de proficiência nas três áreas cobertas pelo Pisa: Ciências (56,6%); Leitura (51,0%); Matemática (70,2%).

c) o traço mais adverso é a redução do nível de proficiência em todas as áreas, comparando-se as edições de 2012 e 2015 (respectivamente): Leitura, 410-407; Ciências, 405-401; Matemática, 391-377. 

d) o Brasil, em 2015, revelou nível inadequado em competências da área de Ciências (e.g. pensar cientificamente e utilizar teorias para solução de problemas práticos).

O quadro é cristalino: ensino e aprendizagem precisam ser fortalecidos em termos de qualidade. Trata-se de aspecto acentuado em relatório recente do Banco Mundial,[v] no qual o Brasil está bem desconfortável – embora reconheçam-se esforços de melhoria e progressos. Nesta mesma linha de argumentação, um indicador da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE – OECD Better Life Index) para mais de 36 países põe o Brasil em penúltimo lugar no ranking no que diz respeito a educação, sendo superado pelo Chile (dados divulgados em abril de 2014).[vi]

Por outro lado, no que se refere ao panorama da educação superior no Brasil, inicialmente registram-se alguns aspectos estruturais básicos, reflexo do ambiente internacional desde os anos 1970. Para isso, recorre-se a trabalho desenvolvido pela Ceplan para a Faculdade Senac,[vii] retomando-se agora cinco componentes da análise global sobre o Ensino Superior, que têm[TA3]  maior ponto de contato com a linha analítica aqui adotada:

• mudanças no perfil: a) quebra do monopólio geográfico, regional ou local – surgimento de novas forças competitivas; b) mudanças organizacionais. O perfil de faculdades e universidades antes voltadas apenas a comunidades nacionais e locais muda para o de instituições que operam em mercados globais, mais competitivos e sem padrão definido de regulamentação.

• mercado cada vez mais competitivo, oligopolizado e rumando a um sistema globalizado de oferta de educação superior. Competitividade se torna, em todo o espaço nacional, preceito-chave – espelhando o ambiente internacional.

• expansão da demanda e da oferta (e, portanto, do acesso) ao Ensino Superior. Expansão mundial do número matrículas em educação superior no mundo, embora no Brasil ainda seja insatisfatória a proporção de pessoas com formação universitária comparativamente à dimensão do grupo etário que, em tese, seria o público potencialmente demandante de instrução superior.

• crescente valorização do ensino a distância (EAD), em especial por instituições privadas – seguindo tendência mundial e dialogando com novas tecnologias de comunicação.

• tendência à interiorização. Fenômeno que se ampliou bastante no país (e em Pernambuco) – nos últimos 15-20 anos – embora no momento esteja também em fase de estabilização.

            O acesso ao Ensino Superior segue crescendo, fortemente impulsionado por financiamento estudantil (FIES, Fundo de Financiamento Estudantil, reembolsável; ProUni, não reembolsável, para alunos de instituições privadas). Houve retração desse fluxo de financiamento a partir de 2015, afetando dados de 2016, ano em que foram oferecidas mais de 10,6 milhões de vagas em cursos de graduação: 73,8% de novas vagas e 26,2% de vagas remanescentes. Foram preenchidas 33,5% das novas vagas, enquanto apenas 12,0% das vagas remanescentes foram ocupadas.[viii] Por outro lado, o número de matrículas em educação superior (graduação e sequencial) permaneceu em crescimento, mas com desaceleração, já que entre 2006 e 2016 a média anual foi de 5% – variação de apenas 0,2% em relação a 2015.[ix] O crescimento da oferta de vagas foi de tal ordem que hoje o sistema de Ensino Superior opera com vagas ociosas na maioria dos cursos de graduação.

            Adicione-se que, em 2016, matrículas de ingressantes em cursos de graduação somaram quase três milhões de alunos. A maior parte (82,3%) em instituições privadas. Após redução em 2015, o fluxo de ingressantes cresceu 2,2% em 2016, mas o da modalidade ensino a distância (EAD) cresceu 20% entre os dois anos em função da inovação bastante escorada em novas tecnologias, e cujo resultado, em termos de qualidade, ainda carrega elementos de dúvidas, em particular se a expansão se der de forma pouco criteriosa. A isso se contrapõe redução de 3,7% do número de ingressantes em cursos presenciais.[x]

Por fim, veja-se outro lado da expansão do Ensino Superior. Pesquisa sobre a trajetória de estudantes que ingressaram em cursos superiores, em 2010 (Censo da Educação Superior 2015, Inep)[xi] revelou que quase metade dos ingressantes (49%) desistiu dos cursos, até 2014. As possíveis razões para isso, entre outras, são: escolha não adequada ao perfil pessoal do candidato; dificuldades de custeio do próprio curso (livros e outros materiais, mensalidades); qualidade do ensino ministrado (falha docente na captação do interesse do aluno); baixo grau de preparação do estudante na educação básica.

A expansão do Ensino Superior no Brasil nos últimos 20 anos, certamente desejável como meta – dada a defasagem de cobertura demográfica – não veio acompanhada de satisfatório avanço em qualidade do output educacional.

Nunca é excesso se realçar o papel da qualidade do ensino tanto na educação básica quanto na universidade, um terreno em que o que vem pela frente, ou já em curso, implica avançar em contexto de rápidas mudanças tecnológicas, que demandam adaptação e requalificação de professores e do ambiente (salas de aula e, além disso, todo o ambiente em cada instituição de ensino). Portanto, se já havia sério problema de insuficiência de qualidade em todos os níveis de instrução, o desafio se faz mais complexo com o ritmo de mudanças tecnológicas, fato que já exige grande esforço de inovação pedagógica e de capacitação de professores.

3. A questão educacional em Pernambuco

Esta seção contém caracterização do problema, envolvendo: aspectos básicos da expansão educacional (ensino básico e Ensino Superior), além de esforços desenvolvidos para melhoria do sistema educacional; e aspectos qualitativos da educação.

3.1. Expansão educacional e recentes iniciativas pró-avanço

Examinem-se – primeiro – elementos concernentes à expansão da educação básica no estado de Pernambuco a partir de números do Inep de 2005 e 2016. O estado teve um número total de matrículas no ensino básico de cerca de 2,3 milhões em 2016 (aproximadamente 49,0 milhões no país), indicador que decresceu no período – por conta, entre outras razões, da dinâmica demográfica. Tal redução tem participação obviamente expressiva de matrículas no Ensino Fundamental e no Ensino Médio (1,33 milhão no Ensino Fundamental e 437,6 mil no Ensino Médio).

O segmento de creches, com grande expansão, passou de 44.868 a 96.167 matrículas. Creches privadas representaram cerca de 50% das matrículas em 2016. Tal crescimento indica importante benefício social no atendimento a crianças menores de idade (até cinco anos). Todavia, sabe-se que urge avançar bastante na direção de inclusão social neste segmento.

Por fim, ocorreu notável ampliação no nível médio, mais precisamente na Educação Profissional, de 20.273 para 99.992 matrículas. Embora não se possa atribuir todo esse efetivo à esfera local, é sabido que o governo estadual vem impulsionando essa área, inclusive incorporando educação integral – parte dos esforços que vêm sendo feitos em período recente, adiante abordados.  

A respeito do Ensino Superior, e antes de se tratar de expansão, reitere-se que as tendências do Ensino Superior referidas na seção anterior – mudança de perfil organizacional, globalização, demanda versus oferta, crescimento do EAD e interiorização – também influenciaram o panorama da educação no estado de Pernambuco. Destaque-se, neste estado, o recente surto de expansão da demanda e da oferta de Ensino Superior, com financiamentos do setor público (Fies, ProUni), algo que está em fase de desaceleração devido à reversão do fluxo de recursos. Ademais, enfatize-se a interiorização do ensino universitário no estado, embora – como já dito – a essa fase recente seguiu-se uma estabilização do crescimento. Tais vetores têm claras conexões com os aspectos a seguir considerados.

Os números para o período 2005-2016 – dados do MEC/Inep – são claros em mostrar a expansão recente do Ensino Superior em Pernambuco e no país. Considerando-se os valores extremos, o número de matrículas em cursos superiores, no Brasil, evoluiu de 4.453.156 (2005) para 6.554.283 (2016) – crescimento de 47,2%. Pernambuco parte, na mesma ordem temporal, de 136.952 para 231.323 matrículas – crescimento de 68,9%. No Nordeste, o crescimento foi de 95,2%. Assim, fica evidente que a região foi o território por excelência da expansão, a uma proporção ainda maior que a do Brasil e mesmo a de Pernambuco. Já o interior de Pernambuco apresentou crescimento de 73,4% (59.915 para 103.672), evidenciando o fenômeno da interiorização neste estado.

O outro lado dessa moeda, no entanto, fica evidente – também conforme o citado estudo da Ceplan –, no que se refere ao balanço demanda/oferta, que em todos cursos, exceto Direito e Medicina, registrou-se, no período 2001-2015, ocorrência de vagas ociosas. E isso se deu por via bem peculiar: a demanda (pessoas inscritas em concursos e que, portanto, intentaram ingressar em um curso superior) é bastante superior à disponibilidade de vagas; todavia, o número de novos ingressantes se mostrou inferior ao de vagas. Possíveis intercorrências devem, portanto, ter lugar, o que inclui fatores como percepção tardia de discrepância ‘curso escolhido versus curso adequado ao perfil de cada um’, incapacidade financeira para cobrir as despesas do curso, insegurança por conta de frágil formação escolar básica. 

Ademais, há a dimensão maior representada por evasão no Ensino Superior, como visto na seção 2. O fato é que ociosidade de vagas é fenômeno quase generalizado e se prolonga ao longo da graduação. E isso põe em xeque a contínua ampliação da oferta de vagas, caso questões pertinentes não sejam enfrentadas. E – unanimidade entre especialistas em educação – a[TA4]  condição fundamental para se combater evasão no ensino universitário é melhorar bastante a educação básica.

            A ampliação observada beneficiou estratos sociais que teriam enfrentado maior dificuldade de alcançar a educação superior, não fossem tal expansão e apoios por meio de fundos de financiamentos e bolsas-auxílio. Esse registro é particularmente relevante para residentes no interior – território que, em Pernambuco, tem boa representação nos polos universitários de Vitória de Santo Antão, Garanhuns, Caruaru, Serra Talhada e Petrolina.  

A trajetória da educação em Pernambuco, aqui delineada, contempla agora referências a esforços que estão sendo feitos, em período recente, no sentido de aproveitar oportunidades do relativamente recente despertar para a gravidade da questão educacional.

Vem sendo observado, há, pelo menos, mais de dez anos, um conjunto de esforços governamentais – e também de segmentos da sociedade – com vistas a efetivamente mudar os padrões de produção e de transmissão de conhecimento, buscando-se acelerar o ritmo de melhoria de qualidade da educação. Embora o mesmo possa ser afirmado com respeito a outros estados do Nordeste e do país, Pernambuco está entre os que vêm se destacando em termos de tais esforços, entre os quais destacamos:

1. Programa de Modernização da Gestão Pública – opera sobre fundamentos de gestão por resultados, buscando-se gerar – de forma participativa – metas por unidade de ensino. Trabalho em parceria com o Movimento Brasil Competitivo (MBC) e uma empresa brasileira especializada em consultoria de gestão por resultados. Foi instituído em 2008. Inclui bonificação aos profissionais de escolas que alcançam as metas.

2. Programa de Educação Integral – também instituído em 2008, já como política pública de Estado. O objetivo do programa, dirigido ao Ensino Médio, é preparar jovens para, uma vez concluído o Ensino Médio, estarem aptos a seguir carreira acadêmica ou se dirigir ao mundo do trabalho em sentido amplo. As escolas operam conforme os seguintes regimes: a) integral, com carga horária de 45 horas aulas semanais, em unidades que funcionam em tempo integral durante os cinco dias da semana; b) semi-integral: com 35 horas aulas semanais. Informações da Secretaria de Educação (Seduc) dão conta de que Pernambuco passou a contar, em 2018, com 372 escolas no Ensino Médio em tempo integral (332 são as chamadas escolas de referência e 40 Escolas Técnicas Estaduais).

3. Programa Paulo Freire/Pernambuco Escolarizado – desenvolvido no âmbito do Programa Brasil Alfabetizado (MEC), configura iniciativa estadual vinculada ao Plano Nacional de Educação. Dirige-se a “alfabetização e letramento de jovens, adultos e idosos, tendo como público pessoas com 15 anos ou mais, não alfabetizadas, residentes em zona urbana e zona rural”. Também contempla “a população carcerária e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas, além de residentes de conjuntos habitacionais do Programa Minha Casa, Minha Vida (Faixa 1), beneficiárias do Programa Mulheres Mil, entre outras parcerias que tiverem educação como parte integrante de sua execução”.[xii]

4. Programa Ganhe o Mundo – instituído como política pública em dezembro/2011, destinado a estudantes do Ensino Médio, com desempenho mínimo de nota 7,0 em Português e Matemática, para intercâmbio de um semestre letivo em escolas públicas e privadas no exterior. Teriam sido beneficiados cerca de 3000 estudantes no período 2012-2017.

Ademais, conforme um projeto de lei aprovado na Assembleia Legislativa de Pernambuco, em junho de 2017, escolas estaduais do Ensino Fundamental também passarão a ofertar educação integral. O projeto-piloto foi implementado em julho 2017, na Escola Creusa Barreto Dornelas Câmara, bairro da Torre, Zona Oeste da capital.[xiii]

Por outro lado, investimentos em infraestrutura e em qualidade da gestão, a exemplo do Projeto de Desenvolvimento da Educação e da Gestão Pública no Estado de Pernambuco, têm sido feitos com vistas a reforçar a linha programática de mudança do padrão da gestão pública e reduzir carências de infraestrutura e equipamentos.[xiv]

Tecnologia da Informação é área de importância estratégica que também vem sendo apoiada e, óbvio, não poderia ser diferente. Trata-se de provisão de equipamentos de informática e de acesso à internet. A esse respeito, esforços vêm sendo despendidos, mencionando-se, por exemplo, o Plano Diretor de Tecnologia 2016-2018 – que contempla, inclusive, metas educacionais, no âmbito do Programa Pernambuco 2035. De fato, carências nessa área ainda são consideráveis.

Afora tais esforços do governo estadual e de instâncias da sociedade civil, outras iniciativas e programas têm lugar, inclusive o de unidades federais de ensino técnico (Instituto Federal de Educação) e o de escolas profissionalizantes, na órbita do governo municipal. Conta-se, também com perspectivas de extensão, ao Ensino Fundamental, do programa de educação integral, nos moldes de plano nacional recentemente instituído. Pernambuco, como outras unidades da Federação, também dispõe de organizações do Sistema S, que proveem significativa oferta de ensinos técnico e profissionalizante.

Há, portanto, programas novos e programas já estabelecidos há mais tempo, o que constitui importante malha de entidades, além do sistema de Ensino Superior, e diversos programas que cobrem desde crianças de zero a seis anos até o ensino técnico e o Ensino Superior. Reconheça-se, todavia, que ganhos educacionais nos degraus acima do Ensino Médio dependem, crucialmente, de um padrão de qualidade adequado, que seja garantido já nos degraus inferiores. 

Feitas considerações sobre a expansão educacional e sobre os recentes esforços governamentais de melhoria, em Pernambuco, contemplem-se agora questões qualitativas, similarmente ao que se fez para o país. 

3.2. Qualidade da educação: óbices ao avanço

Preservada a linha analítica de contextualização, anote-se – primeiro – que, entre os avanços ocorridos em Pernambuco e no país, está o da ampliação do atendimento escolar para crianças de seis a 14 anos. Números de 2015 informam como Pernambuco se situa nesse campo. O atendimento escolar aos alunos da referida faixa etária, próximo de universalização, ainda tem resíduo. Porém, nos últimos dez anos avançou bastante. Pernambuco (com 98,2%) supera a média do Nordeste (98,0%) e se aproxima da média nacional (98,5%). A despeito da permanência de pequena proporção de crianças não atendidas, o progresso é evidente e, neste caso, Pernambuco – com maior ritmo de crescimento desse indicador, em dez anos – se destaca.

            Contudo, relativamente à mesma temática foi publicada informação do IBGE sobre a identificação de 2,8 milhões de brasileiros com quatro a 17 anos de idade fora da escola no início do ano escolar de 2018. Sem dúvida, um número expressivo. Aspectos tocantes a extrema pobreza, desestruturação familiar, além de “falta de interesse” estão entre os fatores adversos por trás de tal fato.

Outro aspecto básico é a renitente taxa de analfabetismo. Ao longo do período 2001-2015, Pernambuco reduziu esta taxa em um terço (22,0% para 15,4%), enquanto no Brasil a redução superou um pouco esse patamar (12,4% para 8,0%). Todavia, se mantidos o contingente de analfabetos e o ritmo de redução – o sistema educacional cumprindo seu papel, sem acréscimo de analfabetos ao longo dos anos – seriam virtualmente necessárias cerca de três décadas para erradicação do analfabetismo no estado. Portanto, urge estabelecer e cumprir metas em prazo bem mais curto. Avanço houve, mas é anacrônico que ainda se tenha tal magnitude de iletrados em Pernambuco e no país. Ademais, dados do IBGE revelaram um estranho reverso neste estado: a taxa de analfabetismo de 2015 (15,4%) cresceu 0,6 ponto percentual sobre o indicador de 2014 (14,8%).[xv]

O quadro é ainda mais preocupante quando se consideram analfabetismo e deficiência do Ensino Fundamental. Ora, o indicador de analfabetismo funcional usualmente disponível é o utilizado pelo IBGE: critério operacional que define analfabeto funcional como sendo o indivíduo com menos de quatro anos de estudo. Por essa medida, a taxa de analfabetismo funcional, conforme dados da Pnad 2015, a proporção de brasileiros com 15 anos ou mais de idade e menos de quatro anos de estudo formal atingiu 17,1% em 2015. O Nordeste, todavia, coerentemente registrou proporção maior (26,6%). Apesar de algum progresso (redução em todas as regiões brasileiras), trata-se de taxas inaceitáveis, como média nacional ou regional.

Se aplicado um critério tecnicamente mais robusto – incapacidade de um indivíduo de compreender textos básicos, se expressar por escrito, fazer operações aritméticas básicas – o resultado revelaria contingente bem maior de analfabetos funcionais, tanto em Pernambuco quanto no país.[xvi] E isso incluiria indivíduos com Ensino Fundamental completo, fator que evidencia a deficiência da qualidade do Ensino Fundamental no estado e no país.

De toda forma, houve – mesmo sob percalços – avanço significativo em termos de atendimento à demanda escolar.

Ampliando-se a análise, a partir de dados referentes à Prova Brasil e ao Saeb,[xvii] examinem-se avaliações realizadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC). Trata-se de instrumentos que têm como objetivo “avaliar a qualidade do ensino oferecido pelo sistema educacional brasileiro a partir de testes padronizados e questionários socioeconômicos”, aplicados entre estudantes da “quarta e da oitava séries (quinto e nono anos) do Ensino Fundamental”, que respondem a itens (questões) de Língua Portuguesa (Leitura), e Matemática (resolução de problemas).

 Nos termos da Prova Brasil, dirigida ao sistema público de ensino, pode também “ser observado o desempenho específico de cada rede de ensino e do sistema como um todo das escolas públicas urbanas e rurais do país”. No caso do Saeb, “a participação é facultativa para as escolas privadas e obrigatória para as escolas públicas”. As médias de desempenho propiciadas por esses sistemas de avaliação são subsídios para o cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Uma adversidade, entretanto, foi a brusca queda das proporções de alunos com adequada proficiência,[xviii] na passagem do 5o ano para o 9o ano, informação relativa a 2015. De cada cem alunos, Pernambuco e Brasil tinham, respectivamente, 37 e 50 com adequado nível de proficiência em Português(Leitura e Interpretação de Textos), no 5o ano. Os resultados para o 9o ano foram, na mesma respectiva ordem, de 22 e 30 de cada cem alunos.[xix] Similar comparação em Matemática(resolução de problemas) levou a reduções ainda mais significativas. Ou seja, evidencia que na caminhada dos últimos quatro anos do Ensino Fundamental o sistema estaria sendo incapaz de, pelo menos, garantir o mesmo alcance obtido até o 5o ano. O fato de o conhecimento ministrado ir se tornando mais complexo não implica, necessariamente, maiores proporções de insucesso dos alunos. Portanto, buscar aproximar, entre os diversos anos do ensino básico, resultados em termos de alcance de níveis adequados de proficiência é tarefa que certamente está na agenda do sistema público de educação básica.

Em suma, a grande maioria dos alunos do Ensino Fundamental não possui adequado nível de proficiência, com Pernambuco situando-se em desvantagem, versus resultados globais para o Brasil. Ademais, também no Ensino Médio (3ª série) a situação é bastante problemática, embora o estado fique em posição menos desvantajosa, inclusive com relação ao Brasil. De fato, considerando-se informações sobre proficiência média, o desempenho dos alunos – em todo o país – fica aquém do nível mínimo adequado, tanto em Português quanto em Matemática.[xx] Nesta última área, todavia, Pernambuco logrou se situar, em 2015, acima da média nacional – em momento em que foi registrada regressão/estagnação do indicador, em Matemática, para São Paulo e outros estados.

O Ideb – criado em 2007, com escala de 0 (zero) a 10 (dez), tendo em conta o fluxo escolar e o desempenho em avaliações de Língua Portuguesa e Matemática – propicia avaliação de aprendizagem via medida do desempenho dos alunos em avaliações de larga escala, censitárias, aplicadas às redes públicas (municipais, estaduais e federal), de que participam apenas escolas com, no mínimo, 20 alunos matriculados nos anos de referência da avaliação.

A trajetória do Ideb – entre os anos de 2005 e 2015 – referente às escolas da Rede Pública Estadual de Pernambuco foi a seguinte: 3,3 em 2015; 3,4 em 2007; 3,6 em 2009; 3,9 em 2011; 3,7 em 2013 e 3,9 em 2015. Portanto, notas que revelaram para o período recente uma trajetória positiva, mesmo assim ainda em patamar muito baixo. Mas, a deficiência de desempenho relativo à educação não ocorre apenas em Pernambuco. De fato, ao se contrapor ao estado mais forte da federação (São Paulo) a evolução do indicador para Pernambuco se deu com maior aceleração. No mesmo período a trajetória do Ideb para o estado de São Paulo foi de: 3,3 em 2005; 3,4 em 2007; 3,6 em 2009; 3,9 em 2011; e 3,9 em 2015. Portanto, apesar de ter obtido uma nota ainda bastante baixa – indicando deficiências educacionais relevantes – Pernambuco apresentou uma trajetória recente mais dinâmica. A propósito, considerem-se os valores, bem mais modestos, do Ideb da rede estadual de educação do Ceará (de 3,0 para 3,4 – em compasso aproximado de estagnação) e Bahia (de 2,7 para 2,9 – em ritmo lento), os dois outros maiores estados da região.

            Fica claro que a trajetória de Pernambuco, nesses virtuais dez anos, teve ritmo bem mais acelerado do que a de São Paulo. Todavia, além do melhor ritmo de crescimento do Ideb de Pernambuco, o resultado comparativo foi também impulsionado, favoravelmente a este estado, pela estagnação do mesmo indicador para São Paulo, nas três últimas edições do índice. 

Pernambuco, já há algum tempo, está entre os estados do Brasil em que se busca inovar em gestão governamental, e a educação tem se destacado nesse processo. Possíveis associações entre programas educacionais de Pernambuco – já referidos nesta seção – e alguns resultados são contemplados na próxima seção, conclusiva, retomando-se pontos da discussão conduzida até aqui, e acrescentando-se, quando necessário, novas informações e considerações. 

 4. Adendo conclusivo: avanços, percalços, desafios

Entre outros resultados, vê-se que Pernambuco – assim como o país – em período recente revelou expansão educacional e avanços, conforme indicadores educacionais básicos, mas não sem dificuldades e, como o país, este estado permanece longe do desejável face ao grande atraso que se enfrenta. Contudo, progresso houve. E desafios, abundam.

Os indicadores examinados revelam certa singularidade, agora oportunamente enfatizada: Pernambuco, de fato, destaca-se em alguns aspectos. Esta é uma leitura com visão contextualizada; portanto, trata-se de posição relativa. Quando se examinam números da educação como grandeza absoluta vê-se ganho aquém do grau em que o estado – assim como o país – deveria estar. Pode-se dizer que Pernambuco avançou em vários aspectos, entre os quais destacam-se os a seguir discriminados. 

1. proximidade da universalização do atendimento escolar a crianças de seis a 14 anos – o país se aproxima deste patamar, mas Pernambuco ampliou tal atendimento em ritmo mais acelerado do que o Brasil, nos últimos dez anos até 2015, diferenciando-se nos primeiros degraus da educação.

2. taxa de distorção idade-série – dados do Inep, agora incorporados à análise, mostram que, de 2011 a 2015, no Ensino Médio (em que são escoados impactos de deficiências vindas do Ensino Fundamental) os valores para Pernambuco evoluíram de 49,1% para 33,6%; enquanto para o Brasil os valores foram de 36,5% para 30,6%. Portanto, a redução do indicador no estado (traduzindo avanço) alcançou, no referido período, cerca de 32%. No Brasil, a redução foi de algo como 16%. Sem se perder de vista que cerca de 33 alunos de cada 100 fora da série esperada para a idade nesse nível escolar é uma proporção ainda muito alta. A trajetória de redução da distorção idade-série, em Pernambuco, é francamente mais acelerada que a do país.                                                                                   

3. taxa de evasão[xxi] – o Ensino Médio constitui indicador de grande relevância para a composição do cenário educacional recente. Consideradas as referências temporais 2010/2011 e 2014/2015, em Pernambuco a taxa de evasão (%) neste nível escolar, esfera pública, foi reduzido de 15,0 para 11,4. No Brasil, também para o Ensino Médio, escolas públicas, as proporções – no mesmo período – evoluíram de 13,3 para 12,3. Em termos globais (esferas pública e privada, conjuntamente): 13,8 para 10,6 em Pernambuco; e 12,2 para 11,2 no Brasil. O resultado, neste caso, foi absolutamente favorável ao estado, que não apenas reduziu significativamente o fenômeno da evasão no Ensino Médio como mudou de status: de superior a inferior à média nacional. Anote-se que, a despeito de menores taxas de evasão no setor privado (5,2% em Pernambuco e 3,8% no Brasil), os valores são de estabilidade no referido período.[xxii]

Evidente que se pode, também neste caso, pôr tal resultado na quota de progresso educacional em Pernambuco, o que possibilita se avançar no plano local e chamar a atenção do próprio poder público, em todas as esferas, e da própria sociedade para haver um grande salto qualitativo. Ademais, é possível – agora com maior segurança – considerar a hipótese de que, entre outros fatores no plano da gestão pública, um importante elemento pró-avanço tem sido a experiência de ampliação do Ensino Médio integral e de escolas de referência, em processamento em Pernambuco há pelo menos 10 anos – e agora se torna explicitamente uma política de caráter nacional. 

Por fim, referende-se o resultado alcançado na escala do Ideb, pelo qual o estado de Pernambuco também inverte a posição – relativamente ao Brasil, em 10 anos, 2005-2015 – de inferior para superior ao Ideb nacional: PE (2,7 para 3,9) e Brasil (3,0 para 3,5).

            Aos êxitos alcançados contraponha-se o reconhecimento de percalços. Afinal, é longa a estrada que se percorre, e é imperativo não se permitir que evidentes resultados positivos ofusquem o que persiste como anacronismo.

O analfabetismo emergiu, da análise aqui empreendida, como o mais incômodo dos desconfortos pelo fato de, no cenário mundial, ser desconcertante que o Brasil ainda não tenha eliminado tal deficiência. Ademais, é inconcebível que – ao longo de 15 anos, 2001-2015, como já mencionado – Pernambuco tenha experimentado quatro momentos de reversão da taxa de analfabetismo, como em 2014-2015, com crescimento desse indicador.

Também é decepcionante que a escolaridade média de pessoas com 25 anos ou mais de idade ainda esteja, no Brasil, no patamar de 7,8 anos (2014), sendo de 6,9 anos o indicador para Pernambuco, no mesmo ano, uma média que sequer corresponde ao Ensino Fundamental completo. Tal indicador tem peculiar ritmo, mas é frustrante que, no longo período 1992-2014, dados de Pnads exibam – sem diferenças importantes, seja entre regiões ou entre estados – lenta evolução e, pior, que isso se dê acoplado à generalizada estabilidade ou ao decréscimo da média em anos mais recentes (2013-2014). No Distrito Federal, a média verificada (e estável) em 2013 e 2014 (10 anos de escolaridade) é a única que equivale a Ensino Fundamental completo.

A insatisfatória qualidade do ensino nos diferentes níveis – conforme diversos indicadores – é indubitavelmente o grande percalço. De fato, é desconcertante saber que o nível de proficiência da grande maioria dos alunos está abaixo do adequado ao lugar que ocupam na escala educacional. E no Ensino Fundamental – em contraste com melhor posição relativa no Ensino Médio – Pernambuco ainda tem maior deficiência comparativamente aos inadequados resultados globais do país.

Mencione-se uma área – comum a Pernambuco e ao país – em que se pode acelerar o ritmo de avanço: busca da universalidade de acesso à internet em todos os níveis de ensino e, em particular, no Ensino Fundamental. Registros de 2015 apontam que A existência de computador nas escolas públicas em Pernambuco contempla 67% das instituições, mas menos da metade delas possui acesso à internet, embora o cenário seja melhor no caso das escolas estaduais.[xxiii] Por outro lado, tal disponibilidade não é o suficiente para se traduzir em efetivas transformações, o que depende da qualidade da conexão à rede mundial de computadores, do processo de renovação pedagógica e das devidas qualificações de professores e funcionários de cada instituição escolar, o que requer tempo para maturação de resultados, mantidos processos continuados de capacitação.   

Estabelecidos avanços e percalços, é o momento de apontar desafios. É inescapável se reconhecer um desafio fundamental, estratégico: garantir qualidade da educaçãodesde os primeiros degraus, algo a ser alcançado em ritmo de progressiva redução da defasagem no âmbito mundial. Desafio e marco orientador para Pernambuco e para o país. Nesse sentido, são importantes ações concernentes a: i) garantia, em curto e médio prazos, de capacitação plena do professorado, mantendo-se sistemáticas de atualização; ii) eliminação de deficiências de infraestrutura em toda a rede de ensino, erradicando-se a insalubridade dos ambientes, inclusive salas de aula – algo que afeta significativamente o processo de aprendizagem, sendo o mais difícil, nesta área, a eliminação das ameaças que se dão no entorno de escolas, em certos espaços urbanos – fruto de desequilíbrios sociais, inclusive a criminalidade; iii) erradicação do analfabetismo, no menor espaço de tempo possível, algo em que há considerável margem de liberdade para se aumentar a eficiência de ações nessa área; iv) pleno atendimento a crianças de zero a cinco anos, via creches; v) universalização do acesso à internet de alunos, professores e funcionários – em todos os níveis de ensino – também no menor espaço de tempo possível;     vi) ademais, um flanco a que se necessita dar maior importância: o da gestão escolar, em que se precisa avançar, via mudanças em processos de escolha do diretor ou diretora, e capacitação dos gestores, com maior envolvimento de todo o staff no cotidiano da escola. Este requisito de gestão é essencial para que se garantam, no plano da governança, algo que seria muito bem vindo e que constituiria um fator estratégico para reduzir tensões e percalços na gestão do sistema escolar público. Tratar-se-ia de um ambiente mais favorável à absorção de inovação no ensino, na direção de plena apropriação de novas tecnologias, o que seria reforçado por uma eventual, e definitiva, mudança institucional, também requisito transformador: educação atrelada a um projeto nacional de longo prazo, sem vinculação a objetivos políticos e governamentais de curto prazo.[xxiv]

Por fim, nunca é demais reafirmar que à temática educacional estão associadas várias implicações para uma sociedade, em termos econômicos e no que se refere a aspectos sociais e políticos (desigualdade, cidadania, bem-estar, consolidação de instituições democráticas, entre outros), que afetam condições de vida da população. E atraso educacional é fator decisivo para consolidar pobreza e desigualdade social, impondo limites a políticas de qualificação profissional e restringindo produtividade do trabalho e competitividade. A dimensão econômica enfatiza a conexão da produtividade do trabalho com educação de boa qualidade; vinculam-se educação, qualificação profissional e produtividade, um flanco da literatura econômica associado à relação entre qualidade do trabalho, produtividade e lucro. Mas é a dimensão humana, social, da educação – acepção global e inclusiva, além do econômico per se – o aspecto a ser priorizado, porque educação traz autonomia cidadã, alimentando criatividade e capacidade crítica; é, portanto, semente básica para a cidadania e a democracia. Para a nação brasileira assumir seu devido lugar no mundo, deve-se – seja em Pernambuco, seja no país – obviamente tratar educação como pilar do desenvolvimento social e do fortalecimento da cidadania.


[i]
                NOTAS E REFERÊNCIAS

                        [i] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE (pesquisas domiciliares, inclusive Pnads – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios); Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, Inep – Ministério da Educação; e o Pisa (Programme for International Student Assessment/Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). O Pisa, sob coordenação internacional da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – no Brasil, coordenação do Inep – é uma “avaliação comparada, aplicada de forma amostral a estudantes matriculados a partir do 8º ano do Ensino Fundamental na faixa etária dos 15 anos”. A última edição (trienal) do Pisa é de 2015.

[ii]              James Heckman – consagrado autor entre economistas que privilegiam o tema – vem enfatizando a importância dos primeiros degraus de instrução escolar para o aproveitamento de talentos e o fortalecimento da capacidade humana de absorver conhecimento. Heckman chama a atenção já para a educação de crianças de zero a seis anos, fase em que o cérebro humano tem imensa capacidade de rapidamente absorver informação e, portanto, de receber inputs que alimentam capacidades inatas; aspecto de crucial relevância em um país, como o Brasil, cuja literatura sobre pobreza, violência e criminalidade revela um trágico processo de destruição de talentos. Ver: WEINBERG, Monica. James Heckman e a importância da educação infantil. 22 set. 2017. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/revista-veja/james-heckman-nobel-desafios-primeira-infancia/>. Acesso em: 24 jan. 2018.

[iii]              Cf. Síntese de Indicadores Sociais 2016(IBGE), p. 65.

[iv]              Idem, referindo-se ao Human Development Report (2014), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD (United Nations Development Programme, UNDP).

[v]              Ver: World Development Report. A World Bank Group Flagship Report. Learning to realize Education’s Promise.World Bank Group. International Bank for Reconstruction and Development. Washington, DC. 2018. Com base em informações do Pisa 2015, este estudo traz o seguinte sobre “learning” no Brasil (aprendizagem, enfatizada como efetiva absorção de conhecimento – com autonomia interpretativa): Although the skills of Brazilian 15-year-olds have improved, at their current rate of improvement they won’t reach the rich-country average score in math for 75 years. In reading, it will take more than 260 years. (Overview, p. 3). Tradução livre: “Embora o conhecimento e as habilidades dos estudantes brasileiros de 15 anos de idade tenham melhorado, seriam necessários – mantido o atual padrão de avanço – 75 anos para alcançar, em Matemática, a média de proficiência de países ricos. Em Leitura, seriam necessários, no mínimo, 260 anos”.

[vi]              Disponível em: <http://www.oecdbetterlifeindex.org/topics/education/>.                                           Referido em: <https://veja.abril.com.br/blog/impavido-colosso/em-ranking-da-educacao-com-36-paises-brasil-fica-em-penultimo/>. Acesso em: 24 jan. 2018.

[vii]             Trata-se de Estudo ‘Demanda de cursos superiores para a Faculdade SENAC/PE’. Produto 2: Análise de Demanda e Oferta de cursos superiores em Pernambuco. Recife, julho de 2017.

[viii]            Disponível em: <http://portal.inep.gov.br/artigo/-/asset_publisher/B4AQV9zFY7Bv/content/mec-e-inep-divulgam-dados-do-censo-da-educacao-superior-2016/21206>. Acesso em: 24 jan. 2018.

[ix]              Idem.

[x]              Idem.

[xi]             Estudo reportado em “A evasão no Ensino Superior”. Disponível em: <http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,a-evasao-no-ensino-superior,70002195900>. Acesso em: 20 fev. 2018.

[xii]             Disponível em: <http://www.educacao.pe.gov.br/portal/?pag=1&men=73>. Acesso em: 07 fev. 2018.

[xiii]           Informações da Secretaria de Educação de Pernambuco, reportadas no JC online. Disponível em:

                <http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/politica/pernambuco/noticia/2017/06/28/pernambuco-levara-educacao-integral-para-ensino-fundamental-292094.php> e <http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/educacao/noticia/2017/07/01/recife-ganha-escola-estadual-de-tempo-integral-no-ensino-fundamental–292726.php>. Acesso em: 07 fev. 2018.

[xiv]            Em 2010, no âmbito do referido projeto, Pernambuco recebeu do BIRD (Banco Mundial) um empréstimo de US$ 154 milhões – para aplicação nos segmentos de gestão e infraestrutura; conforme divulgado pela Rede Mobilizadores, um dos diversos grupos que representam a sociedade civil em trabalhos dirigidos à área social. Ver Rede Mobilizadores. Disponível em: <http://www.mobilizadores.org.br/noticias/bird-libera-us-154-mi-a-educacao-de-pernambuco/>. Acesso em: 09 fev. 2018.

[xv]             Dados da Pesquisa Nacional por Amostra Domicílios (Pnad), já refeitos e ajustados, como usualmente faz o IBGE. Na verdade, sem que algo similar ocorra nas correspondentes séries históricas para o país e a região, outros pontos de reversão/estagnação são detectados no caso de Pernambuco (%): 2002-2003 – 21,6-21,8; 2006-2007: 18,6-18,7; 2011-2012:15,7-16,7. Tais resultados sugerem que se reexaminem programas de alfabetização nesse estado.

[xvi]            Pode-se contrapor, todavia, que pesquisas sistemáticas que gerassem séries históricas de resultados mais robustos sobre analfabetismo funcional envolveriam alto custo. No entanto, com avanços tecnológicos nessa área, tal custo poderia ser reduzido ao longo do tempo.

[xvii]            Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/> e <http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/31992>. Acesso em 01 jan. 2018.

[xviii]           As escalas de proficiência utilizadas no Saeb envolvem níveis que variam por série e temática. O que importa ter em conta é que tais escalas têm os seguintes escores mínimos de nível de proficiência dos estudantes, respectivamente para Português e Matemática: 5º ano, Ensino Fundamental – 200 e 225; 9º ano, EF – 275 e 300; Ensino Médio (3º ano) – 300 e 350.

[xix]            Disponível em: <http://www.qedu.org.br/brasil/aprendizado>. Acesso em: 5 fev. 2018.

[xx]             BRASIL. Inep. Sistema de Avaliação da Educação Básica. Edição 2015. Resultados. Brasília, DF – Setembro de 2016. Arquivo PPT disponível em´:<http://download.inep.gov.br/educacao_basica/saeb/aneb_anresc/resultados/resumo_dos_resultados_saeb_2015.pdf>. Acesso em: 5 fev. 2018.

[xxi]            Definida como “proporção de alunos que [em determinado ano] estavam matriculados na série k (etapa de ensino seriada do Ensino Fundamental ou médio) e [no ano seguinte] não estavam matriculados”. Disponível em: <http://portal.inep.gov.br>. Acesso em: 5 fev. 2018.

[xxii]            A fonte para os indicadores de evasão e distorção idade-série são, como outros já mencionados, oriundos de bases de dados do Inep. Disponível em: <http://portal.inep.gov.br/web/guest/indicadores-educacionais>. Acesso em: 11 fev. 2018.

[xxiii]           Cf. Panorama dos Territórios – Pernambuco. Instituto Unibanco. Março 2017, pp. 36-37 e 67.

[xxiv] Trata-se de aspecto lembrado por diversos especialistas, com variação de nuances, sendo algo a ter formulação que se traduza em proposta prática e viável. Indicação de gestores meramente por critérios político-partidários, e uso de marketing eleitoral na área de Educação – por exemplo – são práticas absolutamente prejudiciais a um projeto de longo prazo.


 

Este livro foi confeccionado pela CEPLAN atendendo a solicitação da CEPE – Companhia Editora de Pernambuco em 2018, sob a coordenação da Dra Tania Bacelar e o Phd Tarcisio Patrício de Araujo. Pedidos podem ser feitos pelo fone (81) 3183-2700 ou no endereço Rua Coelho Leite, 530 – Santo Amaro – Recife – PE

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